História

Os Rikbaktsa (rikbak ‘gente’ + tsa ‘não feminino. plural’) vivem em 36 aldeias, distribuídas às margens dos rios Juruena, Sangue e Arinos, no noroeste do estado do Mato Grosso. Além do nome rikbaktsa, esta etnia é também conhecida pelos nomes Orelhas de pau e Canoeiros, sabendo que este último é empregado, sobretudo, pelos não indígenas que vivem perto das áreas indígenas rikbaktsa. A sociedade rikbaktsa é dividida em duas metades exogâmicas (Hahn 1976) e patrilineares, a saber: makwarak ‘arara amarela’ (Ara ararauna) e harobiktsa ‘arara cabeçuda’ (Ara chloroptera). Estas duas metades são, por sua vez, constituídas de vários subclãs, designados pelo nome do clã principal (Athila, 2006).

Os Rikbaktsa vivem em duas Terras Indígenas contíguas – a TI Erikpatsa e a TI Japuíra e em uma terceira, a TI do Escondido, mais ao norte, na margem esquerda do rio Juruena. Seu território tradicional situava-se entre os paralelos 9° e 12° latitude sul e os meridianos 57° e 59° longitude oeste, espraiando-se pela bacia do rio Juruena, desde a barra do rio Papagaio, ao sul, até quase o Salto Augusto no alto Tapajós, ao norte; a oeste expandia-se em direção ao rio Aripuanã e a leste até o rio Arinos, na altura do rio dos Peixes.

Embora isolada, a região há havia sido atravessada por expedições científicas, comerciais e estratégicas desde o século XVII. Entretanto, pouco se conhecia das matas ocupadas pelos Rikbaktsa já que, naqueles trechos do rio Juruena e Arinos, as expedições mantinham-se sempre no leito do rio ou na sua proximidade, pouco se aventurando no interior da mata. Deste modo, até a penetração dos seringueiros no final da década de 1940, nenhuma menção havia sobre os Rikbaktsa. A ausência de referências históricas anteriores e de estudos arqueológicos não permite determinar a antiguidade de sua ocupação. Entretanto, a memória tribal, as referências geográficas expressas em mitos e o extenso e detalhado conhecimento da fauna e flora que demonstram ter sobre o território e seus arredores fazem supor uma permanência bastante antiga.

Eram bem conhecidos pelos grupos indígenas vizinhos com os quais, quase sem exceção, mantiveram relações hostis. Famosos por seus costumes de guerreiro, eles lutaram com os Cinta-Larga e Suruí a oeste, na bacia do rio Aripuanã; com os Kayabi a leste e com os Tapayuna a sudeste, no rio Arinos; com os Irantxe, Paresí, Nambikwara e Enawenê-Nawê ao sul, no rio Papagaio e nas cabeceiras do rio Juruena; com os Munduruku e Apiaká ao norte, no baixo rio Tapajós. Opuseram resistência armada aos seringueiros até 1962. A partir da “pacificação” dos Rikbaktsa, financiada pelos seringalistas e realizada pelos jesuítas entre 1957 e 1962, seu território tradicional passou a ser ocupado por diversas frentes de exploração de borracha, madeireiras, mineradoras e agropecuárias. Durante e logo após o começo do genocídio, epidemias de gripe, sarampo e varíola dizimaram 75% de uma população calculada em cerca de 1.300 pessoas. Perderam a maior parte de suas terras e a maior parte das crianças pequenas foram retiradas das aldeias e educadas no Internato Jesuítico de Utiariti, situado no rio Papagaio, a quase 200 km de sua área, junto com crianças de outros grupos indígenas também contatados pelos missionários. Os adultos remanescentes foram sendo gradativamente transferidos de suas aldeias originais para aldeias maiores e mais centralizadas sob a direção “catequizadora” dos jesuítas. Em 1968 tiveram demarcada cerca de 10% de seu território original – a Terra Indígena Erikpatsa – as crianças foram sendo levadas de volta para as aldeias.

Na década de 70, a atuação missionária se modificou, atenuando seu autoritarismo, reconhecendo o direito dos povos indígenas à sua própria cultura e abrindo mais espaço, sempre reivindicado pelos Rikbaktsa, a uma maior autonomia. Desde o final dos anos 70, passaram a lutar pela recuperação de parte de suas terras. Em 1985, conseguiram retomar a região conhecida por Japuíra. Continuaram a luta pela região do Escondido, demarcada pelo Estado brasileiro só em 1998, estando, entretanto, ainda invadida por garimpeiros, madeireiras e empresa de colonização. Os rikbaktsa têm como fonte principal de alimentação a caça e a pesca. A economia rikbaktsa é baseada na coleta e venda de castanha do Brasil, além da venda de artesanato e da exploração da borracha, atividade esta retomada em 2007.

Todas as atividades de caça, coleta, pesca e agricultura se inserem nesse universo de significação e são ritualizadas no ciclo de cerimônias ritmadas pelo ano agrícola. Neles, a música, as canções e os enfeites plumários tem uma importância fundamental, expressando de forma sensível seu universo social e mítico, suas formas de sensibilidade afetiva, estética e religiosa. No processo de retomada de sua dignidade étnica, os rituais, a música e as narrativas míticas revestem-se de importância crucial, expressando e constituindo o núcleo de coesão e identidade que lhes permite enfrentar as transformações induzidas pelo contato, sem desintegrar-se como povo de cultura e história originais. Há a festa do milho verde em janeiro, a festa da derrubada em maio e festas menores pontuando toda a sequência de atividades anuais. O ponto alto do ciclo ocorre em meados de maio, quando as metades e os clãs aparecem com suas pinturas corporais, enfeites plumários e toques de flauta característicos. Nessa ocasião encenam-se episódios míticos e também episódios de lutas vividas na história recente por homens da comunidade. Os Rikbaktsa são exímios tocadores de flautas e as canções tradicionais apropriadas são tocadas em todas as festas.

Registros orais de histórias de mitos são importantes para os Rikbaktsa, os quais acreditam na reencarnação. Esta, por sua vez, depende da vida corrente. Os virtuosos podem reencarnar como seres humanos ou como macacos da noite (nunca são caçados pelos Rikbaktsa), enquanto vilões reencarnam como animais perigosos, tais como onças ou cobras venenosas. Acreditam, no entanto, que estas transformações ocorrem para o bem.

Ritos de Passagem

Homens:

Os meninos recebem seu nome de criança no momento de seu nascimento. Desde quando ele está entre 3 e 5 anos de idade, ele começa a caçar com seu pai, que ensina sobre caça, animais e sobre a geografia local. Por volta dos seus 8 ou 10 anos de idade, os meninos podem fazer e usar seu próprio arco e flechas. Uma vez que um garoto apresente condições de manejar o arco e a flecha com proficiência, seu nariz é perfurado durante a cerimônia do milho e recebe seu segundo nome, quanto tem em torno de 11 ou 12 anos. Nesse ponto, poderá passa algum tempo na casa dos homens, onde ele aprende sobre a cultura de sua tribo e assume maior responsabilidade. Tradicionalmente, quando o garoto é capaz de caçar animais de grande porte e tem conhecimento sobre as cerimônias tradicionais, em torno de 14 anos de idade, ele teria suas orelhas furadas em uma celebração. Esse rito (agora obsoleto) marcou a transição dos meninos para a vida adulta e elegibilidade para o casamento. O jovem, então, está habilitado a participar de uma expedição de guerra contra as tribos vizinhas (prática igualmente abandonada). Hoje, os jovens colaboram na recuperação e manutenção do território. Logo após esses rituais ou depois do casamento, o jovem recebe seu terceiro nome, o adulto. Hoje, não é mais necessário para um homem receber seu terceiro nome, contanto que tenha conhecimentos a respeito de sua cultura. Os mais velhos também mudam seus nomes quando adquirem maior status social.

Mulheres:

Meninas, tradicionalmente, têm seus narizes perfurados aos 12 anos, sendo praticado apenas por alguns Rikbaktsa hoje. Nessa idade, as meninas tomam uma espécie de substância medicinal para reduzir potencias dores durante o parto. Os pais decidiam suas filhas teriam ou não seus rostos tatuados para a cerimônia de casamento. Após o furo no nariz e, talvez, a tatuagem no rosto e seu casamento, a mulher tem o direito de receber um nome de adulto para substituir o de criança.

Atividades Econômicas

Embora a agricultura seja fundamental para a vida tribal, os Rikbaktsa consideram-se caçadores-coletores, em vez de agricultores. Os conhecimentos tradicionais dos recursos naturais são transmitidos entre as gerações e os membros do grupo livremente, que, combinado com recursos da floresta tropical em abundância, permite maior igualdade dentro da tribo. Cada residência é composta por um homem, sua esposa, seus filhos solteiros, suas filhas (casadas ou solteiras), seus afilhados e seus netos. Geralmente produz-se o que é consumido, em termos de alimento. A cooperação entre um grupo maior ocorre apenas durante os rituais agrícolas e algumas outras ocasiões, mas é complementada por um sistema de relações de parentesco recíprocas. Os Rikbaktsa utilizam uma técnica de agricultura chamada coivara, onde parte dos campos de plantio é posto em chamas a cada 2 ou 3 anos. Campos antigos são geralmente deixados em repouso e, finalmente, retomado pela floresta. Rikbaktsa regularmente plantam arroz, mandioca, milho, inhame, feijão, algodão, urucu, bananas, amendoim, cana de açúcar, e abóbora. Ocasionalmente laranjas, tangerinas, abacaxi, manga e outras frutas também são plantadas.

Organização Política

A reciprocidade é a característica mais importante nas relações políticas para os Rikbaktsa. Mulheres são trocadas entre clãs para casamento, bens e trabalhos são oferecidos para o outro clã. A quebra de reciprocidade entre subgrupos podem causar a divisão deles, que é influente na determinação da distância entre as aldeias. Embora o histórico do povo Rikbaktsa seja de intensas batalhas e rivalidades, hoje a sobrevivência destes tem incentivado a coesão entre os subgrupos, formando alianças com outras sociedades indígenas. Em princípio cada grupo doméstico se constitui como uma unidade política. Tradicionalmente não havia chefes, ainda que tenha havido líderes cuja influência transcende sua própria casa ou aldeia. As chefias centralizadas impostas pelos missionários foram de curta duração e de pouca eficácia. Os líderes mais influentes, a par de sua capacidade pessoal, costumam ser os com a família mais numerosa. Atualmente um novo tipo de líder ascende, os jovens com mais conhecimento da sociedade envolvente, que podem oferecer respostas mais adequadas aos problemas que a situação de contato lhes impõe.

 

Equipe Técnica

Roteiro Técnico – Artístico: Juarez (Rikbaktsa), Isidoro (Rikbaktsa), Paulinho (Rikbaktsa), Tião (Cimi), Dagmar Talga, Murilo M. O.de Souza.

Câmera: Dagmar Talga, Murilo M. O.de Souza, Janiel de Souza, Glória Sarmiento.

Fotografia Filme: Leonardo Melgarejo.

Fotografia documental: Jaqueline Vilas Boas Talga.

Pesquisa: Mariana Pontes, Jaqueline Vilas Boas Talga.

Edição de som – Colorista – finalização: Pacis

Edição Gráfica: Janiel de Souza

Edição: Glória Sarmiento, Janiel de Souza.

Direção de Edição/Direção geral: Dagmar Talga, Murilo M. O. de Souza.

Trilha: Rikbaktsa, Afrika Bily, Luís Salgado.

Produção: Juarez (Rikbaktsa), Isidoro (Rikbaktsa), Paulinho (Rikbaktsa), Tião (Cimi), Dagmar, Murilo M. O.de Souza, Janiel de Souza, Rafaela de Oliveira, Rebeca Talga, Vanderlei Pignati, Otília Maria Teófilo, Jaqueline Vilas Boas Talga, Tiago Camarinha Lopes.

Apoio: Gwatá/UEG, UEG, Sebrae – MT, Cimi Regional – MT, UFMT – MT, CUT – MT, SINTEP – MT

Realização: Povo Rikbaktsa, Cimi Regional – MT, Essá Filmes, Gwatá/UEG.

Rikbaktsa Soho

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